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O que é isto?
Curso natural das coisas
Acredito na natureza. Não apenas, ou exatamente, na natureza que conhecemos, externa, a dita natureza ecológica, mas na natureza interna, que rege todas as coisas. Natureza que guia tudo pela e para a evolução. A natureza que vemos e tocamos, a externa, é apenas um reflexo da natureza evolutiva de todas as coisas.

É estranho pensar que a natureza tenha criado um ser como o homem. Uma criatura que supera a própria natureza, mudando o curso das coisas para estender sua existência além dos limites e dos planos da natureza.

Penso que todo tipo de ser que vive ou viveu na terra já foi, em seu tempo, o ser mais evoluído de todos. Toda criatura é uma espécie de experiência evolutiva, que tem seu ápice, mas que acaba sendo substituída por um exemplar que está um passo à frente na escala evolutiva. Há sempre apenas uma criatura no topo, o resto se tornou ultrapassado e acaba servindo de alimento. Mas a natureza sempre acaba aparecendo com um ser mais evoluído ainda...

Penso também que nós, seres humanos, ao contrário do que pensamos, não somos o limite da evolução, nem o ideal da tal natureza, mas sim, que somos seu pior erro. Somos evoluídos o suficiente para trazer resultados muito satisfatórios como uma experiência, mas não somos evoluídos o suficiente para coexistir pacificamente com outros seres da natureza... nem com nós mesmos!

Mas nesse ponto a natureza perdeu as rédeas. É um passo arriscado demais dar a nós um cérebro e uma consciência, ambos bastante eficientes. Agora estamos no topo e temos cérebro e consciência... e vamos destruir qualquer coisa que tente nos superar... mesmo que seja a própria natureza...
Pensamentos e mais pensamentos...
Andava por uma rua enorme, bem larga e mal iluminada, com um poste que teimava em sempre apagar enquanto passava por ele. Gosto de andar enquanto penso. E penso que são poucos os que pensam como eu. Não falo de idéias ou bandeiras. Falo de jeitos de pensar. Sou desorganizado, me deixo levar por pensamentos, verdadeiras bolas de neve, cada vez maiores e mais loucos. Quantas vezes parei, sob um poste que não sabia que estava lá, e sorri pra mim mesmo, pensando no pensamento absurdo que havia acabado de pensar...

Bom, o fato é que andava por uma rua enorme e mal iluminada... que não quer dizer nada! Nunca reparo nos postes mesmo. Só naquele que sempre apaga. Parece que diz pros outros “olha, aí vem o bocó de boca aberta olhando pro nada... olha como vou pegar ele de novo”. E pega mesmo. Esse poste é um tapa na cara, sempre me assusto. Mas nunca me demoro no susto “...poste filho da puta” e logo estou perdido em mim mesmo outra vez...

Mas o fato, de novo, é que andava por uma rua... que pensando bem também não faz a menor diferença! Ando por outras dez ruas, e ainda duas avenidas, uma praça, passo pela prefeitura, pela delegacia, um mercadinho (que já não é mais tão “inho” assim), por um bando de postes e outro bando de gente, gente sem rosto, que agente não conhece e que vive se desculpando aos esbarrões, tudo isso até chegar numa outra praça, maior, com igreja e sinos e uma rádio horrível que me espanta todos os pensamentos...

Essa é a história de um cara. E esse cara, independente dos postes e ruas e pessoas, amou uma garota com tudo o pôde. Mas era um cara egoísta e orgulhoso (por isso era só um cara e não um homem!!!), e cegado por essas “qualidades” todas não soube demonstrar esse amor a essa garota (que era só uma garota, e não uma mulher, por que... bom depois eu explico!!!). Na verdade essa é a história da transformação de um cara, esse tal cara aí, em um homem. E a história começa assim:

Andava por uma rua enorme, bem larga e mal iluminada, com um poste que teimava sempre em apagar enquanto passava por ele. Noite de inverno, andava encolhidinho, as mãos nos bolsos, pensando feito louco em uma briga de bar pela qual havia passado a pouco, e no modo como entrei na briga para apartar, e como tive que usar um taco de bilhar e bater em dez nativos de botequim pra poder sair da bodega sem um arranhão sequer... até um poste estúpido me trazer de volta à realidade, onde meus sessenta e poucos quilos não servem nem mesmo para matar baratas, quem dirá para brigas de bar...
Discurso filosófico!!!
O que é a vida?

Depende... é uma sucessão de acontecimentos e sentimentos e pessoas, um monte de coisas às quais só você pode dar um sentido. Alguém disse que a vida é uma peça de teatro, no palco do mundo, e nós somos meros atores, entrando e saindo de cena a todo momento... então cabe apenas a nós representarmos nosso papel o melhor que pudermos. A vida é uma coisa que apenas nós mesmos podemos fazer por nós... ninguém pode viver em nosso lugar! A morte é uma conseqüência inevitável da vida, e que também ninguém pode fazer por ninguém... A vida é difícil, triste às vezes, mas ainda assim é a coisa mais divertida que conheço! Não há passado, pois é o que deixou de existir... não há futuro, pois é o que ainda não aconteceu... não há presente, pois o presente e a eterna transformação do futuro em passado... há apenas a existência, eterna... a vida é uma existência eterna, pois a cada “instante” a vida acontece, e está em seu ápice.

O que é o erro?

É a chance de se desculpar!
A maneira mais rápida de se chegar ao acerto.
Um aprendizado.
Às vezes é a ínfima separação entre o sucesso e o fracasso... às vezes é só um erro.
Atenção pessoas, não morri, não fuji, não abandonei o lugar. Estou apenas preparando uma coisa... conheço muito bloguero que vai digitando tudo direto na telinha, mas esse não é o meu jeitão. Sou "antigo" e prefiro papel e caneta. Tudo que coloco aqui passa pelo mecanismo arcaico da escrita manual. Tipo Platão: isso é apenas a sombra na caverna, mas em algum lugar na zona do meu quarto existe um blog de carne e osso - uma caixa de All-Star cheia de papel! Não é tão organizado quanto "aqui" mas no caso de uma guerra mundial destruir toda a comunicação do planeta e a internete desaparecer, eu ainda terei meus pensamentos todos.

A coisa que estou preparando é um conto. Quero termina-lo antes de começar a postar aqui. Quando estiver perto de terminar passarei mais detalhes.

Aquele Abraço!!!

P.S. Não sei se alguém notou, mas o exercito, por esses dias, tem praticado exercícios de guerra e exibido seus brinquedinhos por todo o país. O estranho é que a imprensa parece não ter notado isso, nem tem dado tanta bola. E isso tudo as vésperas do governo liberar uma tal verba para uma "rede de pesquisa de fusão nuclear". Não gostei muito disso...
Ontem um conhecido meu me parou na rua:

- E o blog?! Não ai escrever do Lula não?!

Bom, fiquei surpreso. Pelo jeito este blog é mais lido do que eu pensava. Quanto ao Lula, não tinha muito o que dizer. Fui sincero: dessa vez não tive nada a ver com isso!

- Votô nulo?! – se espantou o outro.

Como já disse o namorado de uma desconhecida minha, não sou obrigado a escolher o “menos pior”. O voto nulo é sim uma opção, principalmente quando as demais opções não alcançarem as nossas expectativas. Há quem diga que desperdicei meu “direito”. Pois digo que nunca fiz melhor uso dele. E nunca participei da democracia de maneira mais ampla e livre.

- É, mas “ano passado” era só bandeirinha, brochinho, Lulali, Lulalá... e agora nada!? – entendam “ano passado” por “eleições de 2002” – que é que mudou de lá pra cá?!

Eu mudei. Deixei de acreditar. O Brasil tem muitas tribos e, consequentemente, muitas crenças: tem gente que acredita nos 50 reais do Bolsa-Família. Tem gente que acredita em marqueteiro de campanha. Tem os que acreditam na TV, no coronel, na própria sorte... eu acreditava na esquerda. Achava que a revolução era possível, que utopia era só falta de vontade. Usei mesmo broche, bandeira, discutia com as pessoas na rua. E não me arrependo, não! Acho muito importante abraçar uma causa, acreditar, brigar... O que ninguém podia imaginar é que a briga já estava perdida muito antes de começar.

Aquela eleição nós ganhamos. Mas com o passar dos dias, a gana pela revolução foi fraquejando. Nada acontecia. Até que um dia, um tal Arnaldo Jabor, cineastazinho de idéias truncadas e fala eloqüente, disse que a esquerda tinha morrido. E a direita também. E tudo fez sentido. Minha revolução teria que voltar pro armário.

Quando Evo Morales “rendeu” a Petrobrás, tomando de nós, brasileiros, milhões em investimentos e tecnologia, como tantos outros brasileiros, eu fiquei indignado. Revoltado. Alguém falava em invadir e eu já ia concordando.... Mas era só inveja. Inveja do povo que tinha um cara pra tomar de volta, com pulso patriota, as riquezas e o orgulho de sua nação.

E respondendo aqui a pergunta de meu amigo, do Lula mesmo não tenho o que escrever. Se for um bom presidente, legal. Se não for, não é minha culpa.

Robinsom
Sobras se espicham pelo muro. A brisa é mansa e fresca. A noite vai longe, arrastada pela luz pálida da lua. De quando em quando um carro sobe a rua e ilumina a fachada de nossa casa. Só uns instantes. Logo a noite abraça tudo outra vez, a rua, as fachadas, as árvores, e o céu volta a salpicar estrelas em meus olhos.
Registro

 

Em 1986, no auge de meus seis anos, tive minha ultima festa de aniversário. Festa mesmo, com bolo, tia-de-longe e tudo, foi a ultima. Me lembro que aquela foi uma época difícil pra mim. Era uma idade complicada, seis anos. Mas qual não é?!

 

Aos seis anos, tudo o que eu queria era ter nove! Todos os meus problemas estariam resolvidos para sempre. Ia poder entrar em qualquer brinquedo no PlayCenter, escolher minha própria comida, ia ser tudo festa. Quando finalmente fiz nove anos, tudo o que queria era ter treze. Além dos inconvenientes inerentes à idade, segundo a opinião de terceiros, estava muito velho para ter uma festa de aniversário. Aos treze, queria ter dezoito. Carta de motorista, clubes, embriagues... os prazeres da vida mundana, agora visíveis (e distantes!) na minha vida, me excitavam.

 

A vida antes dos dezoito anos, todo aquele tempo pra crescer, se arrastou por uma verdadeira eternidade. Uma vida longa e cheia de sonhos e desejos... a vida pós-dezoito e curta e cheia de contas. A impressão era a de que os anos passavam de par em par.  Cada aniversário era um ano a menos. Tão pouco tempo, e ainda tinha que gastar um terço dele dedicando minha capacidade e subserviência a alguém que iria usa-las para ficar ainda mais rico. Estava tão encanado com isso de tempo que passava quase todo o meu segunto-terço de tempo livre pensando nisso tudo. E sonhava com isso tudo, enquanto gastava meu último-terço...

 

Hoje em dia já não sou tão neurótico. Desencanei dessa de tempo. Aliás, eu nem sequer  acredito que o tempo exista de verdade (mas isso é outra história, que pretendo contar quando tiver um bom argumento!). Penso na data de meu aniversário como um monumento, um marco inaugural, data de honrarias e homenagens à existência mais fantástica e mais importante de minha vida. E é sempre uma chance nova de provar que festas com tequila e amigos tem um impacto muito maior em sua vida (e em sua saúde!) do que festas com tias gordas e brinquedos repetidos!

 

...parabéns Mimmy!

Indolescência

 

Homens-anjo

transeuntes alados, confusos,

sobrevoam as esquinas da madrugada

barganhando com sua inocência

por sonhos baratos

 

Após algum tempo,

embriagados por vontade insana,

desesperados, de mãos vazias,

abrem mão de sua eternidade hipócrita.

Trocam as próprias asas

por migalhas de um aproveitados qualquer.

 

Quanto a mim?

Chorar, rir, sofrer, cair, me erguer,

esses são meus sonhos baratos.

Minhas asas, a essa altura

Já são artigo de brechó,

E minhas migalhas,

esticada sobre um balcão qualquer,

enquanto procuro nos bolsos,

inutilmente, uma nota de cem...

A vida é minha maior heroína.

Um dia ela ainda me salva.

Um dia ela ainda me mata.

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*(promoção válida apenas em ligações de prisão para prisão. )

___

Como diz o Macaco Simão, o Brasil é o Pais da piada pronta!!!
Segue o linque com texto sobre o assunto! (nem esquenta que não é vírus não!)
http://oglobo.globo.com/pais/mat/2006/09/10/285602454.asp
Arte?!...

Sábado último (7/10) foi aberta ao público a maior exposição de arte contemporânea da América Latina: a Bienal da Arte. Mas afinal, o que é arte?

Artistas diferentes tem respostas diferentes para essa pergunta, mas todas elas, de alguma forma, caminham para a mesma afirmação de que arte é a expreção (ou tradução!) da razão humana.

Mas a “arte” contemporânea, na prática, não funciona bem assim. Por exemplo, na entrada da exposição, há uma obra gigantesca, várias esferas de plástico cheias de ar, umas sobre as outras. Aí o visitante entra, olha, faz uma cara de intrigado e... nada!

- São nuvens! – diz o artista, um jovem argentino de jeitão revolucionário.
- Quê?! – reage o visitante.
- Tá ali na plaquinha! – sim, por que tem uma plaquinha! – é a representação estética da formação das nuvens no firmamento!
- Ah!!!

Acho que, quando o artista tenta explicar a sua obra, ele está limitando a “existência” da mesma, transformando todas as possibilidades em apenas “aquilo”, o seu próprio ponto de vista.

É estranho haver uma dita obra cujo sentido da arte não está na própria obra, mas sim em uma explicação a parte. Arte que precisa de manual de instrução! Nunca precisei de plaquinha pra entender Bandeira! E depois, já vi nuvens mais legais que essa tal. Uma vez vi uma nuvem que era a cara o Jô, e ainda assim parecia mais com uma nuvem do que essa tal.

E aqui estamos! O ponto alto da conversa! Uma afirmação esdrúxula, porém mais competente e sincera em sua razão de ser que a supracitada obra:

“Se quisesse ver legenda eu alugava um filme gringo!!!”
Ontem (2/10) o programa Roda Viva promoveu uma espécie de ‘debate’ entre membros do governo e da oposição. Nada de novo, a mesma ladainha de todo o período eleitoral: de um lado as comparações entre as boas ações do governo atual e as cagadas do governo anterior, do outro o mesmo discurso puritano sobre a ética e a moral na política... postura que, se bem me lembro, eles nunca tiveram!

Este circo teria sido bem chato, não fosse o “esquema” montado pela oposição para tentar conduzir o debate... admito, eles são velhacos! Eram dois caras na “bancada opositora”: enquanto o cara do PSDB falava manso, de maneira vaga, dando uma de coitadinho, o outro cara, o do PFL, partia para a “agressão”, criticava abertamente, falava alto e fazia acusações. Muito inteligente, já que a sigla PSDB está diretamente ligada a imagem do Alkmin, esse teatrinho assegura a máscara de bom-moço pro candidato.

Ainda tinha um cara do PMDB! Governista, "pero no mucho"! Dava lá seus elogios ao povo da situação, mas a uma distância segura. Tipo o carinha tímido que é convidado pra festa mas prefere não se misturar, fica ali por perto do ponche, da comida, só olhando o movimento!

O duro é que nessa brincadeira de “eu sou do bem, você é do mal” eles acabam fazendo política o ano todo (não só nas eleições) e acabam esquecendo que mais importante que uma sigla estúpida é a nação...
Um homem decidido atravessa o silêncio da biblioteca a procura de outro homem. Um norueguês. Acaba encontrando um brasileiro. Um dito maldito, com idéias atravessadas, sentimentos expostos, autêntico, espontâneo. Foi instantâneo; amor a primeira olhada!

É estatístico: mulheres firmam relacionamentos de amizade em bases sentimentais, enquanto homens buscam suas amizades na base da similaridade de idéias e opiniões. Por exemplo, em um bar, elas rodeiam uma mesa para falar dos cretinos dos ex-namorados e de como foi difícil quando ele terminou (mesmo que sejam cretinos completamente diferentes uns dos outros!), enquanto eles se reúnem ao lado para concordar ou discordar sobre as bundas delas.

O fato é que, no caso de nosso homem e seu brasileiro bibliotecado, o amor foi instantâneo. Ele não resistiu à poesia e ao sentimento escarnado, visceral, daquele brasileiro bem letrado. Na primeira folheada em suas idéias, seus dedos interrompem as páginas nos seguintes versos:

“Reclame

Se o mundo não vai bem
A seus olhos, use lentes
... ou transforme o mundo.

Ótica olho vivo
Agradece a preferência.”

Então coisas reviraram dentro dele... sentimentos, revolta, dores, magoas e alegrias, saudades... “transforme o mundo”. Era como se aquelas palavras gritassem para ele. Era como se finalmente a barba em seu rosto fizesse algum sentido. Até então era um moleque que se revoltava com a dormência e a ignorância do mundo, que falava em tapas na cara do mundo... mas que era esperto o bastante para saber quando tomava um tapa na cara... aquele fora um belo tapa. Agora se sentia um homem. Homem sabido do mundo, ainda revoltado com a massa inconsciente brasileira, mas também revoltado com sua própria cara no espelho.

"Transforme o mundo... Transforme seu mundo..."

As palavras vinham de Chacal, um dos poetas-malditos de 70. O nosso homem correra até a biblioteca atrás de um poeta, um Jean Heric Vold, fantástico poeta com grandes olhos de ver o mundo. Mas esse estrangeiro, de repente, pareceu infinitamente distante da vida e da realidade para a qual nosso homenzinho havia despertado... Pois é, já era um homenzinho! E foi esse brasileiro, esse Chacal, quem lhe estendeu a mão, ou o tapa, como preferir.

Poesia é a palara-giz-de-cera

do jardim de infância,

uma casa,

uma árvore,

um sol azul todo contente

...rabisco de felicidade!

Romualdo Sonhador


Era massante. Todos os dias a mesma sagrada rotina. Uma superstição inconsciente... se por acaso não colocasse no pé primeiro a meia esquerda, ou se não dobrasse a esquina da pracinha e abaixasse a cabeça para escapar dos galhos, sempre a mesma esquina e sempre os mesmos galhos, isso tornaria seu dia um inferno total. Era o que ele achava. Como se seus dias já não fossem sempre um inferno...
 
Romualdo, um funcionário público. Profissão de muito valor e respeito em outros tempos. Hoje em dia se aborrece muito, ganha pouco e ainda vai a-pé até o serviço. Acorda as sete e tantas, atrasado, engole o café pelando, veste meias de pés trocados e escova os dentes e dá lá seu jeito no cabelo... tudo ao mesmo tempo! Habilidade de contorcionista. Sai correndo de casa sem trancar a porta. Tudo culpa da putaria da noite passada. Putaria solitária, que lhe rouba o sono e o tempo das manhãs... Trancou ou não a porta? Vai pensar nisso o dia todo.

 - ROMUALDO!!!
 - Sim senhor!
 - Sabe que horas são!?
 - Sim senhor.
 - Sabe que é na minha bunda que o chefe ta grudado!?
 - Sim senhor...
 - E cê deve achar muita graça nisso, né Romualdo!?
 - Sim senhor... humm... não senhor!

E com calorosa recepção ele se enche de motivação e auto-estima. De cabeça erguida ele caminha até sua mesa cheia de trabalho, uma salinha minúscula, nem janela tem. Quando vai abrir um armário é um sufoco. Não cabem os dois lá. "Assim não dá... é você ou eu!" Mas os papeis são mais importantes que ele.

O dia na repartição é... humm... indigesto! O encarregado é um perfeito filho-da-puta. Puxa-saco de primeira linha que adora mostrar serviço, geralmente em cima do Romualdo. Sempre aos berros. "Isso não é vida. Filho d´uma puta... se grita comigo mais uma vez lhe meto uma lapada de todo o muque, bem no meio das fuças..." – ROMUALDO?!... – Sim senhor... Qual´que, mete nada!

Quando voltava pra casa, entre a ducha e o jantar requentado, tinha pena de si. Olhava pro espelho, pro rapazote franzino do outro lado. “...meto uma lapada com todo o muque!” Mete nada!... Que muque? se não tem nenhum. Não tem físico. Só aqueles ombros curtos, curvados de submissão. Também pudera, não pratica esportes! Nunca praticou. Quando menor era a escola. Futebol, vôlei, basquete, sempre ficava de fora. Sempre a ultima escolha ou ficava de fora. As vezes o professor obrigavam seus “amigos” a colocarem ele no time... era pior, um bobo pra lá e pra cá. Hoje em dia não joga nada. Nem sabe jogar, e nem tenta saber.

Romualdo sonhador. Pra que esportes, pra que repartição... ele só precisa é de dinheiro. Se ganha da mega-sena, ah! pro inferno com a repartição. Quem ali tem peito falar dele? Quem ali tem status pra falar dele? –ROMUALDO!!! – Que “ROMUALDO” o cacete, olha o respeito... Que muque que nada! Pra que braço se você tem grana?! Até Luiza! Antes nem sabia da existência de Romualdo, mas agora vem toda cheirosa, só sorrisos, fazendo gracejos, sussurrando indecências no ouvido dele... – ROMUALDO, ACORDA!!! CÊ TEM MAIS O QUE FAZER!!! – Sim senhor... Mas é só isso mesmo, sonho de frouxo, e Luiza ainda não sabe que ele existe... Mas se ganhasse da mega-sena, ah! pro inferno com a repartição...

Um dia, numa manhã muito clara e de céu muito azul, manhã fresca dessas de quase-outono, Romualdo vestiu suas meias, se arrumou todo, saiu apressado, dobrou três esquinas, cruzou a pracinha, desceu a Hermínio Dias, cumprimentou seu amigos da bodega do seu Nhô´Berto, atravessou a rua, entrou no prédio da repartição, foi até o segundo andar onde trabalha, - ROMUALDO VOCÊ... PA! PA! PA! – deu três tiros no encarregado, chamou Luiza de Puta barata e espalhou o próprio sangue pelo chão da repartição.


"Correio da tarde, terça-feira, 4 de abril

Terror no serviço público
Hoje pela manhã, no prédio onde funciona a sub-prefeitura
do bairro Jeripóca, Romualdo dos Santos, 43, funcionário
público, suicidou-se com um tiro na cabeça, após ter matado
com três tiros o encarregado Henrique Mariano Villas Neto.
Junto ao corpo foi encontrado apenas a arma utilizada no
crime, um revolver calibre 38, e um bilhete de loteria,
com a frase “pro inferno com a repartição” rabiscada no verso.
A polícia não tem pistas do motivo do crime e encara o
acontecido como sendo “mais um suicídio sem explicação”,
como disse o delegado Roberto Mourão. Ironicamente o tal
bilhete de loteria, que trazia amassado em uma das mãos,
estava premiado."

Não tinha nome. Talvez tivesse, mas não me lembraria. Não faz diferença... Sua vida "pé no chão" começava a incomodar, mas ainda não havia se dado conta disso. Todos os dias se levantava com o sol, e se colocava sob o olhar penetrante e exigente do tempo que não para nunca; sem poder, por exemplo, dar atenção à simplicidade do dia que começa com ela, que simplesmente surge com o sol, todas as manhãs, e se dissolve no crepúsculo todas as tardes... Era a pessoa ideal, politicamente correta, um exemplo para todos. Mas não fazia nada por si mesma...

Até que numa noite estrelada, noite fresca de começo de outono, não teve o mesmo sonho sem sonhos de todas as noites. A lua fora generosa, e a carregara para um mundo distante do seu. Onde os ventos a abraçavam com ternura e a noite não era fria e escura, mas apenas o véu cravejado de diamantes que cobre um mundo que dorme.

Então sentiu a relva sob os pés, e o vento no rosto, e viu fogueiras à distância, e a si mesma, vestida de brisa, com os cabelos ao léo, dançando com a noite que a envolvia e a conduzia suavemente. Não sentia o tempo, apenas a vida acontecendo e acontecendo, e não se preocupava mais em ter, ou conseguir, ou conquistar... sentia que só precisava ser, simplesmente ser!

Mergulhou num turbilhão de cores e formas, sensações e sentimentos, até ser jogada de volta à cama de onde havia partido.
Acordou assustada, a janela aberta, a cortina ao vento. Sentou-se na cama e não conseguiu dormir mais. Ficou pensando no encontro que tivera consigo mesma aquela noite. “Será que era mesmo eu?”. Não conseguia responder.
No fundo tinha medo de toda aquela liberdade... medo da bruxa que guardava dentro de si...

No dia seguinte, mais uma vez se levantou com o sol, e se colocou sob o olhar penetrante e exigente do tempo; tinha a vida para empurrar mais uma vez... mas desta vez, quando se apressava pelo portão, deixou o tempo correr na frente e olhou o céu azul que se abria para o dia, e por um segundo deixou a magia acontecer...
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