Não tinha nome. Talvez tivesse, mas não me lembraria. Não faz diferença... Sua vida "pé no chão" começava a incomodar, mas ainda não havia se dado conta disso. Todos os dias se levantava com o sol, e se colocava sob o olhar penetrante e exigente do tempo que não para nunca; sem poder, por exemplo, dar atenção à simplicidade do dia que começa com ela, que simplesmente surge com o sol, todas as manhãs, e se dissolve no crepúsculo todas as tardes... Era a pessoa ideal, politicamente correta, um exemplo para todos. Mas não fazia nada por si mesma...
Até que numa noite estrelada, noite fresca de começo de outono, não teve o mesmo sonho sem sonhos de todas as noites. A lua fora generosa, e a carregara para um mundo distante do seu. Onde os ventos a abraçavam com ternura e a noite não era fria e escura, mas apenas o véu cravejado de diamantes que cobre um mundo que dorme.
Então sentiu a relva sob os pés, e o vento no rosto, e viu fogueiras à distância, e a si mesma, vestida de brisa, com os cabelos ao léo, dançando com a noite que a envolvia e a conduzia suavemente. Não sentia o tempo, apenas a vida acontecendo e acontecendo, e não se preocupava mais em ter, ou conseguir, ou conquistar... sentia que só precisava ser, simplesmente ser!
Mergulhou num turbilhão de cores e formas, sensações e sentimentos, até ser jogada de volta à cama de onde havia partido.
Acordou assustada, a janela aberta, a cortina ao vento. Sentou-se na cama e não conseguiu dormir mais. Ficou pensando no encontro que tivera consigo mesma aquela noite. “Será que era mesmo eu?”. Não conseguia responder.
No fundo tinha medo de toda aquela liberdade... medo da bruxa que guardava dentro de si...
No dia seguinte, mais uma vez se levantou com o sol, e se colocou sob o olhar penetrante e exigente do tempo; tinha a vida para empurrar mais uma vez... mas desta vez, quando se apressava pelo portão, deixou o tempo correr na frente e olhou o céu azul que se abria para o dia, e por um segundo deixou a magia acontecer...
festa...
Desde que me entendo por gente nunca perdi uma festa de São Benedito. Nem uma sequer. Tenho vinte e três anos e nunca faltei numa festa de São Bendito. Não por devoção! nem qualquer apego religioso. Mas para um menino de seis anos era uma festa incrível.
As pessoas eram tão grandes, as barracas tão longe... o banheiro então! Longe de não ir sozinho. E escuro. Bem pra lá, onde quase ninguém vai. As maçãs-do-amor tinham cheiro de menina bonita e o vinho-quente, gosto de coisa-que-não-pode... mas minha mãe sempre me dava um golezinho. Só um pouco, hein! criança num pode ficar bebendo vinho, é feio! E é quente, e ta muito frio aqui. Senão amanhã você não fala de tão roco!!! Mas já não era uma criança, era menino! Crianças são bobas, jogando bombinha umas nas outras! Crianças eram bobas e se divertiam, eu era um menino...
Sempre faz muito frio nessa festa, mesmo sendo só outono. Frio de geada. Colocava minhas melhores blusas e ia pra festa. Sempre com minha mãe. Sempre a noite. Lá de baixo, lá longe, já se sentia o cheiro das bombinhas. E o estouro de dar susto. Ai vinha a roleta e os coelhinhos correndo assustados pras casinhas. Uma maçã-do-amor que eu comia sozinho. A pescaria não podia faltar. E todo aquele falatório de adultos. O que será que eles falavam lá em cima? Aqui em baixo é só criança correndo e bombinha e joelhos e cheiro de menina bonita. Um cachorro-quente sem molho nem cebola e íamos pra casa. Sempre quis saber o que faziam todas aquelas pessoas que ficavam enquanto eu tinha que ir.
À noite o cheiro das bombinhas se misturavam com o sono, na lembrança, e pintavam meus sonhos de saudade e alegria. Não era mais hora de ir embora e eu podia pescar quantos peixinhos quisesse. E o sonho era bom porque havia uma fogueira, e era bom entrar na igreja pra ver o santo, muito quieto, e a igreja era muito grande e branquinha. E a maçã-do-amor tinha o cheiro de uma menina linda, com as franjas caindo dos dois lados do rosto, e olhos negros, e boca de poesia... ela me beijava no rosto e corria pelo povo, as vezes olhando pra trás. Corria atrás dela, mas sempre longe como as barracas...
Amanhã é dia de festa. Agora posso ficar até tarde e sei sobre o que os adultos falam. A festa não tem mais cheiro de nada. Pelo menos não na altura do meu nariz. As vezes olho as crianças fazendo guerra de bombinha e lembro de como era. Mas não sinto mais o que sentia antes... e provavelmente nunca mais vá sentir novamente.
Abstrato eu
Sou um abismo entre dois eus
que não se falam
nem se tocam ou se encaram,
e passam os dias jogando palavras,
um ao outro, mas que nunca atravessam
pois há muito abismo
Sou também um olho
grande e muito muito verde,
um verde incrível,
que observa do alto as tentativas vãs,
achando graça nas palavras perdidas
que lá no fundo do abismo,
no escuro do abismo,
se juntam para conspirar...
Politizar é preciso... será mesmo?
Nunca entendi bem essa coisa de sigla de partido. Lá pelos meus oito, nove anos, por curiosidade, desvendei muitas das palavras por trás daquelas letrinhas de politizar. Desvendei e continuei na mesma. Palavras como ‘democrata’, ‘social’, ‘comunista’ não faziam parte do meu vocabulário na época.
Hoje em dia conheço as palavras, mas já me esqueci as respectivas letrinhas. Não faz diferença. Cor, sigla, bandeira, “esquerda e direita”, nada disso faz diferença. Só sei quando é um ou outro na TV pela musiquinha! E olhe lá!
Mas não tenho vergonha dessa minha falta de conhecimento. Não sou o único. Aliás, tô começando a achar que nem mesmo os “candidatos a malando federal” sabem das letrinhas. História, posição, tradição do partido, nada disso importa para Eles. A Câmara parece mais um grande picadeiro da “dança das cadeiras” às avessas: eles já estão sentados, porque já escolheram quem fica e quem sai; e quando a música para eles correm pelas cadeiras, procurando lugares mais “fortes” e rentáveis. Ninguém perde, mas alguns ficam com gabinetes menores.
E nesse circo só não tenho certeza do papel do povo: se espectador ou palhaço!
...sem nome.
Caminhando por destinos tortos
sob dias mortos e noites de mentira,
com o rosto carregado de bebida e maquilagem
para esconder o menino assustado que somos todos,
porque todos temos medo
ou somos grandes mentirosos.
E na solidão da multidão,
no alvoroço solitário da multidão,
o único conforto é não ouvir a própria voz
gritando por amores mortos.
E para quem não bebe e nem sabe mentir
resta apenas o próprio olhar no espelho.
(poema sem nome, escrito em 10 de Dezembro de 2004)
Bom, agora ele parece um pouco mais legal, apesar de ainda ser semi-pré-fabricado!!!
A tela em branco me intimida um pouco. Me sinto melhor escrevendo em pequenos pedaços de papel, geralmente quando bate a vontade, seja a hora que for. Aqui é diferente, o cursor pisca cada vez mais rápido, parece que me apresa enquanto penso no que estou escrevendo, o branco tem um "quê" de formalidade e urgência... mas logo eu me acostumo!
Vencido pelo cansaço
Olá... Depois de duas horas tentando mudar a cara desse ridículo modelo pré-fabricado de blog, eu simplesmente fui vencido pelo cansaço.