Poesia é a palara-giz-de-cera
do jardim de infância,
uma casa,
uma árvore,
um sol azul todo contente
...rabisco de felicidade!
Era massante. Todos os dias a mesma sagrada rotina. Uma superstição inconsciente... se por acaso não colocasse no pé primeiro a meia esquerda, ou se não dobrasse a esquina da pracinha e abaixasse a cabeça para escapar dos galhos, sempre a mesma esquina e sempre os mesmos galhos, isso tornaria seu dia um inferno total. Era o que ele achava. Como se seus dias já não fossem sempre um inferno...
Romualdo, um funcionário público. Profissão de muito valor e respeito em outros tempos. Hoje em dia se aborrece muito, ganha pouco e ainda vai a-pé até o serviço. Acorda as sete e tantas, atrasado, engole o café pelando, veste meias de pés trocados e escova os dentes e dá lá seu jeito no cabelo... tudo ao mesmo tempo! Habilidade de contorcionista. Sai correndo de casa sem trancar a porta. Tudo culpa da putaria da noite passada. Putaria solitária, que lhe rouba o sono e o tempo das manhãs... Trancou ou não a porta? Vai pensar nisso o dia todo.
- ROMUALDO!!!
- Sim senhor!
- Sabe que horas são!?
- Sim senhor.
- Sabe que é na minha bunda que o chefe ta grudado!?
- Sim senhor...
- E cê deve achar muita graça nisso, né Romualdo!?
- Sim senhor... humm... não senhor!
E com calorosa recepção ele se enche de motivação e auto-estima. De cabeça erguida ele caminha até sua mesa cheia de trabalho, uma salinha minúscula, nem janela tem. Quando vai abrir um armário é um sufoco. Não cabem os dois lá. "Assim não dá... é você ou eu!" Mas os papeis são mais importantes que ele.
O dia na repartição é... humm... indigesto! O encarregado é um perfeito filho-da-puta. Puxa-saco de primeira linha que adora mostrar serviço, geralmente em cima do Romualdo. Sempre aos berros. "Isso não é vida. Filho d´uma puta... se grita comigo mais uma vez lhe meto uma lapada de todo o muque, bem no meio das fuças..." – ROMUALDO?!... – Sim senhor... Qual´que, mete nada!
Quando voltava pra casa, entre a ducha e o jantar requentado, tinha pena de si. Olhava pro espelho, pro rapazote franzino do outro lado. “...meto uma lapada com todo o muque!” Mete nada!... Que muque? se não tem nenhum. Não tem físico. Só aqueles ombros curtos, curvados de submissão. Também pudera, não pratica esportes! Nunca praticou. Quando menor era a escola. Futebol, vôlei, basquete, sempre ficava de fora. Sempre a ultima escolha ou ficava de fora. As vezes o professor obrigavam seus “amigos” a colocarem ele no time... era pior, um bobo pra lá e pra cá. Hoje em dia não joga nada. Nem sabe jogar, e nem tenta saber.
Romualdo sonhador. Pra que esportes, pra que repartição... ele só precisa é de dinheiro. Se ganha da mega-sena, ah! pro inferno com a repartição. Quem ali tem peito falar dele? Quem ali tem status pra falar dele? –ROMUALDO!!! – Que “ROMUALDO” o cacete, olha o respeito... Que muque que nada! Pra que braço se você tem grana?! Até Luiza! Antes nem sabia da existência de Romualdo, mas agora vem toda cheirosa, só sorrisos, fazendo gracejos, sussurrando indecências no ouvido dele... – ROMUALDO, ACORDA!!! CÊ TEM MAIS O QUE FAZER!!! – Sim senhor... Mas é só isso mesmo, sonho de frouxo, e Luiza ainda não sabe que ele existe... Mas se ganhasse da mega-sena, ah! pro inferno com a repartição...
Um dia, numa manhã muito clara e de céu muito azul, manhã fresca dessas de quase-outono, Romualdo vestiu suas meias, se arrumou todo, saiu apressado, dobrou três esquinas, cruzou a pracinha, desceu a Hermínio Dias, cumprimentou seu amigos da bodega do seu Nhô´Berto, atravessou a rua, entrou no prédio da repartição, foi até o segundo andar onde trabalha, - ROMUALDO VOCÊ... PA! PA! PA! – deu três tiros no encarregado, chamou Luiza de Puta barata e espalhou o próprio sangue pelo chão da repartição.
"Correio da tarde, terça-feira, 4 de abril
Terror no serviço público
Hoje pela manhã, no prédio onde funciona a sub-prefeitura
do bairro Jeripóca, Romualdo dos Santos, 43, funcionário
público, suicidou-se com um tiro na cabeça, após ter matado
com três tiros o encarregado Henrique Mariano Villas Neto.
Junto ao corpo foi encontrado apenas a arma utilizada no
crime, um revolver calibre 38, e um bilhete de loteria,
com a frase “pro inferno com a repartição” rabiscada no verso.
A polícia não tem pistas do motivo do crime e encara o
acontecido como sendo “mais um suicídio sem explicação”,
como disse o delegado Roberto Mourão. Ironicamente o tal
bilhete de loteria, que trazia amassado em uma das mãos,
estava premiado."
![]() | |||
|
|||