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O que é isto?
Ontem (2/10) o programa Roda Viva promoveu uma espécie de ‘debate’ entre membros do governo e da oposição. Nada de novo, a mesma ladainha de todo o período eleitoral: de um lado as comparações entre as boas ações do governo atual e as cagadas do governo anterior, do outro o mesmo discurso puritano sobre a ética e a moral na política... postura que, se bem me lembro, eles nunca tiveram!

Este circo teria sido bem chato, não fosse o “esquema” montado pela oposição para tentar conduzir o debate... admito, eles são velhacos! Eram dois caras na “bancada opositora”: enquanto o cara do PSDB falava manso, de maneira vaga, dando uma de coitadinho, o outro cara, o do PFL, partia para a “agressão”, criticava abertamente, falava alto e fazia acusações. Muito inteligente, já que a sigla PSDB está diretamente ligada a imagem do Alkmin, esse teatrinho assegura a máscara de bom-moço pro candidato.

Ainda tinha um cara do PMDB! Governista, "pero no mucho"! Dava lá seus elogios ao povo da situação, mas a uma distância segura. Tipo o carinha tímido que é convidado pra festa mas prefere não se misturar, fica ali por perto do ponche, da comida, só olhando o movimento!

O duro é que nessa brincadeira de “eu sou do bem, você é do mal” eles acabam fazendo política o ano todo (não só nas eleições) e acabam esquecendo que mais importante que uma sigla estúpida é a nação...
Um homem decidido atravessa o silêncio da biblioteca a procura de outro homem. Um norueguês. Acaba encontrando um brasileiro. Um dito maldito, com idéias atravessadas, sentimentos expostos, autêntico, espontâneo. Foi instantâneo; amor a primeira olhada!

É estatístico: mulheres firmam relacionamentos de amizade em bases sentimentais, enquanto homens buscam suas amizades na base da similaridade de idéias e opiniões. Por exemplo, em um bar, elas rodeiam uma mesa para falar dos cretinos dos ex-namorados e de como foi difícil quando ele terminou (mesmo que sejam cretinos completamente diferentes uns dos outros!), enquanto eles se reúnem ao lado para concordar ou discordar sobre as bundas delas.

O fato é que, no caso de nosso homem e seu brasileiro bibliotecado, o amor foi instantâneo. Ele não resistiu à poesia e ao sentimento escarnado, visceral, daquele brasileiro bem letrado. Na primeira folheada em suas idéias, seus dedos interrompem as páginas nos seguintes versos:

“Reclame

Se o mundo não vai bem
A seus olhos, use lentes
... ou transforme o mundo.

Ótica olho vivo
Agradece a preferência.”

Então coisas reviraram dentro dele... sentimentos, revolta, dores, magoas e alegrias, saudades... “transforme o mundo”. Era como se aquelas palavras gritassem para ele. Era como se finalmente a barba em seu rosto fizesse algum sentido. Até então era um moleque que se revoltava com a dormência e a ignorância do mundo, que falava em tapas na cara do mundo... mas que era esperto o bastante para saber quando tomava um tapa na cara... aquele fora um belo tapa. Agora se sentia um homem. Homem sabido do mundo, ainda revoltado com a massa inconsciente brasileira, mas também revoltado com sua própria cara no espelho.

"Transforme o mundo... Transforme seu mundo..."

As palavras vinham de Chacal, um dos poetas-malditos de 70. O nosso homem correra até a biblioteca atrás de um poeta, um Jean Heric Vold, fantástico poeta com grandes olhos de ver o mundo. Mas esse estrangeiro, de repente, pareceu infinitamente distante da vida e da realidade para a qual nosso homenzinho havia despertado... Pois é, já era um homenzinho! E foi esse brasileiro, esse Chacal, quem lhe estendeu a mão, ou o tapa, como preferir.
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